Primeiros passos…

 

Minha relação com a música começou cedo. Uma das lembranças mais remotas da minha infância é escutando uma fita K7 dos Beatles e batendo com as varinhas de crochê da minha mãe no sofá, como se fossem baquetas numa bateria de verdade. Sempre gostei de tudo que era relacionado com a música. Mas a coisa começou a ficar mais forte quando, aos meus 10 anos de idade, minha avó Maria Carmem me ensinou duas melodias num teclado: Asa Branca e Oh! Minas Gerais. Fiquei fascinado! Achava bonito violão, e decidi pedir um no natal, imaginando que a disposição das 6 cordas do violão fosse igual à sequência de tons naturais do teclado (as teclas “brancas”, sem as notas “pretas” de sustenido e bemol). E pensei que dessa forma eu não precisaria nem usar a mão esquerda pra apertar as cordas, como as pessoas faziam. Eu só tocaria, com a mão direita nas cordas soltas, as melodias que havia aprendido com minha avó. Quando percebi que a afinação das cordas era diferente, decidi então, um pouco frustrado, aprender a tocar violão. Nessa época, a professora do colégio chamou minha mãe na escola para dizer que eu tinha dificuldades nas aulas de música, onde os alunos eram obrigados a tocar flauta doce.

 

Direto ao que interessa…

Da minha mãe me ensinando as posições das cifras dos Beatles no violão, para minha primeira guitarra, aos 12 anos, foi um pulo. Em seguida, comecei a estudar na escola Pró-Music em BH, pois queria me aprofundar nessa nova paixão elétrica e barulhenta. De 1998 a 2000, eu tive lá o primeiro contato com a música “real”, “de verdade”. Aulas de teoria, prática e performances em grupo me apresentaram o fascinante mundo das pessoas que fazem (e vivem) música. Quando vieram as descobertas da adolescência, lá pelos 15 anos, acabei me afastando desse universo do estudo musical, porém comecei a experimentar duas coisas que me encantavam: o processo de composição e, principalmente, formar uma banda. Eu não digo banda como uma simples reunião de músicos. Eu digo como um grupo de amigos (verdadeiros, em alguns casos), que fazem som de qualidade, pro resto da vida (se possível), e que conseguem nessa união uma força coletiva impressionante, bem maior do que as possibilidades artísticas de seus integrantes individualmente (como são para mim os Titãs, os Paralamas, e as grandes bandas de rock que cresci ouvindo). Deu pra entender? (espero que sim…) E depois de várias tentativas, consegui em 2003 reunir, ainda então como guitarrista, minha primeira banda, a Jacanarana, que me faria acreditar na música como estilo de vida.

 

"Caindo na estrada" (seja la o que isso quer dizer)…

No primeiro churrasco que fizemos para nos apresentar ao vivo, o nosso baterista errou a mão na cerveja e dormiu antes da galera convidada chegar. Só me restou uma opção: substituí-lo eu mesmo, tocando na bateria os reggaes que sabia de ouvir e observar. Acabei gostando bastante da sensação, e também do resultado, assim como o pessoal da banda e todos na festa. A partir desse momento, me senti obrigado a assumir essa posição no grupo (isto é: comprar o instrumento, aprender a tocar e a ser um baterista). Simplesmente da noite pro dia. A Jacanarana foi um momento de felicidade nas minhas tardes de jovem e despreocupado universitário da faculdade de jornalismo. O reggae foi a trilha sonora desse período, onde eu comecei a lidar com os processos da música (compor, ensaiar, fazer shows, arranjar, gravar, mixar, etc). E tive a oportunidade de abrir shows de alguns dos meu ídolos até então, como Skank, Natiruts, Planta e Raiz, Maskavo, Casaca e Bezerra da Silva. Foi como uma escola para mim. Porém sem regras, nem disciplina. Quando a banda chegou naturalmente ao fim em 2005, eu caí num vazio, que curiosamente era o que eu mais queria naquele momento. O reggae já não era mais minha referência musical maior, e minhas composições começavam a soar mais maduras, resgatando influências antigas, como o rock e a MPB. Apesar da vontade, eu não tinha ainda condições de cantar e começar um trabalho meu. Aproveitei esse período para tocar com outras bandas, e durante os anos seguintes me aventurei (auto-ditada, e sem metodologia) por diversos instrumentos. Como baterista, toquei com as bandas Anaguilê, Paulo Meyge Trio e Citiantes. Nos teclados, fiz shows com o Abou e os Caras da Terra. Com o baixo, me divertia na noite com um projeto chamado Comunidade Roots, e participei da produção do disco e shows da banda Maruero. Isso tudo culminou no meu encontro, em 2007, com a banda No Sal, que já havia gravado duas músicas minhas em seu primeiro CD, “Quinto” (2006). Acompanhá-los nos palcos, tocando teclados e violões durante três anos, me deixou muito feliz, pois tenho ali bons amigos. E participar da concepção e das gravações do segundo disco do grupo, “Dois” (2008), que também tem duas músicas de minha autoria, foi uma experiência muito enriquecedora.

 

"Eu existo"(finalmente)…

Paralelamente a esse mergulho na “estrada da noite”, uma necessidade de buscar meu caminho musical próprio começou a vir à tona quando tinha uns 22 anos. Me dediquei então a desenvolver a voz e o canto com o professor Max Dollabela, para poder interpretar melhor as minhas músicas e ter uma certa independência artística. Reuni uma banda, e em dezembro de 2007 fiz meu primeiro show como artista solo. Nunca os holofotes estiveram apontados para mim dessa forma. Já havia tocado em estádios e grandes palcos como instrumentista, mas me apresentar numa pequena casa de shows para uma platéia de amigos e familiares era bem mais complicado. Apesar do nervosismo, gostei dessa sensação. No ano seguinte, resolvi gravar cinco músicas com o guitarrista e produtor musical Augusto Nogueira, que já havia me dado aulas de guitarra nos tempos da Pró-Music. Ele foi um cara fundamental para conseguir o que eu precisava naquele momento. Nesse EP, que foi minha primeira vivência como artista solo (e cantor, principalmente) dentro de um estúdio, participaram também os experientes músicos Arthur Rezende e Thiago Corrêa, o que foi muito bacana para mim. Meses depois eu gravaria ainda um single com o Augusto, “Mais um hoje”, no qual chamamos Glauco e Beto, da banda Tianastácia, que eu sempre gostei bastante. O resultado foi uma sonoridade folk-rock bem interessante, exatamente o que eu buscava naquele momento. Finalmente eu podia mostrar o meu som para as pessoas! Foi um passo muito importante. Depois disso, escalei os músicos para me acompanhar ao vivo, e comecei a ensaiar na sala da minha casa. O astral não poderia ser melhor! Nos shows que fizemos pela cidade, nas casas de pequeno e médio porte (Studio Bar, Vinnil Cultura Bar, Status Café, Estúdio B Music Bar, Café do Sol, entre outros), me deparei com a dificuldade de se levar um trabalho autoral para os palcos. Porém percebi que isso é um desafio que eu gosto, me motiva a melhorar, e que faz a coisa toda fazer sentido.

 

Novos encontros e parcerias…

O ano de 2009 começou apontando novos caminhos. De férias em Salvador, tive a oportunidade de me aproximar do César Santos, genial engenheiro de som, músico, guitarrista, cantor, compositor, produtor musical, especialista em alimentação saudável e faixa preta de Jiu-jitsu e Judô. Eu já havia tido contato com ele nas gravações do segundo CD do No Sal, mas meu espaço dentro daquele ambiente criativo era bem limitado. No clima favorável da capital baiana, convidei o César para produzir um disco comigo, coisa que eu já cogitava há um tempo. De volta a BH, entramos logo em estúdio para gravar uma faixa, que seria o carro-chefe do trabalho que faríamos a seguir. “Segunda-feira” foi a canção escolhida para essa prévia, e não à toa acabou dando nome ao CD. Montamos então o repertório com mais 10 das minhas composições antigas e inéditas, e ainda uma regravação de Milton Nascimento e Fernando Brant, “Coisas da vida” de 1991, pois minha admiração por Bituca e a turma do Clube da Esquina crescia de modo irreversível. Entre as parcerias, estão os poemas de Fabrício Marques, Arnaldo Antunes e Torquato Neto que musiquei, e uma letra que Kadu Vianna fez para uma canção que eu acabava de compor. No Estúdio Verde, propriedade do meu amigo Robertinho Brant, César e eu nos revezamos nos instrumentos e fomos desenhando as sonoridades. O excepcional baterista Lincoln Cheib foi quem nos apontou como deveriam ser os grooves, e por isso o considero praticamente um co-produtor do nosso trabalho. Também colaboraram com talento e sabedoria os músicos: José Lourenço, Ricardo Fiúza, Aloísio Horta, Rudi Berger, Rogério Delayon, Mauro Rodrigues, entre outros. E contei ainda com as participações mais do que especiais de Marina Machado, Kadu Vianna e Gustavo Maguá. Fizemos esse disco da maneira mais apropriada para o meu momento de vida: com calma, sem pressas e prazos, saboreando todo esse processo. Porém, mais de um ano depois do início desse projeto, quando estávamos terminando a mixagem do álbum, uma coisa surpreendente me aconteceu.

 

Um pequeno imprevisto…

Durante um ensaio na minha casa, um dos músicos veio me entregar um papel com uma poesia do Arnaldo Antunes para um concurso do jornal Estado de São Paulo, cujo objetivo era musicar essa letra inédita. Na hora, não dei a menor bola para aquilo, e pensei que o melhor era voltar ao ensaio para o show que já estava próximo. Alguns dias depois, outro músico da minha banda me mandou o link do tal concurso, e resolvi dar uma olhada. Apesar de ainda não botar muita fé naquilo (até porque o regulamento não permitia adaptações), resolvi pegar o violão e me debruçar sobre aquela letra nos dez minutos que ainda faltavam para o almoço ficar pronto. Logo nas primeiras tentativas, lembrei de um afoxé que eu já gostava de tocar no violão. Quando achei o padrão melódico que se encaixava com a métrica da letra, fui até o final, para o meu espanto. Estava pronta a canção! E me parecia ter ficado boa. Chamei então para gravar “Planta colhe” comigo o Marcelo Guerra, guitarrista de personalidade, que recentemente começava também a se aventurar no universo da produção musical. Fizemos a faixa e mandei para o tal Prêmio Musique. Achava que tinha ficado bom, mas já havia participado de tantos concursos, editais e seletivas, que já tinha aprendido a não criar expectativas. E não é que certo dia me liga um camarada de São Paulo pra dizer que o Arnaldo Antunes, entre as cinco finalistas das 517 inscrições de todo o país, tinha escolhido a minha versão como a melhor? […] Ahn?! Isso mesmo! Eu ganhei o Prêmio Musique!!! Rsrsrsrs… Fui então pra Sampa, levando os músicos comigo. Lá conheci o Arnaldo, de quem sou fã desde a época dos Titãs, e que (vocês se lembram) eu já havia musicado um de seus poemas antes, “Pensamento #6”. Dei entrevistas no Estadão, e também remixamos a faixa para ser executada na Rádio Eldorado. Uma experiência inesperada e maravilhosa. Acabei (obviamente) incluindo essa música como bônus track do meu CD que estava prestes a ir para a fábrica. Após esse episódio inusitado, “Segunda-feira” estava pronto.

 

Rompendo a fronteira entre sonhos e projetos…

Simultaneamente ao processo de produção desse disco, comecei aos poucos a realizar um outro sonho antigo: montar meu próprio estúdio. Quando o Pedro Rios, meu companheiro de vida musical desde os tempos do reggae, me chamou para alugar um imóvel e fazer uma parceria, eu topei na hora. Projetado pelo arquiteto Fernando Campos, o Estúdio Locomotiva ficou pronto quase junto com o CD. Agora tenho onde ensaiar e produzir minhas coisas. E outros campos de trabalho começam a se abrir para mim. Seja como instrumentista, compositor, cantor, artista, intérprete, técnico de gravação e mixagem, produtor musical. Ou, simplesmente, músico. Escrevi esse texto enquanto preparo o lançamento de “Segunda-feira”. Espero que gostem do disco e acompanhem os shows que virão por aí, assim como as novidades e os próximos capítulos dessa jornada. Um grande abraço,

Oleives 
(novembro de 2010)

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